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31 DE JULHO É GRITO QUE VEM DA RAIZ

31 DE JULHO É GRITO QUE VEM DA RAIZ

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31 DE JULHO É GRITO QUE VEM DA RAIZ.

O Dia Mundial da Guarda Florestal, celebrado em 31 de julho, é uma data que fala de coragem, mas também de silêncio. No Brasil, onde a floresta é muitas vezes ferida por interesses que não veem valor naquilo que não dá lucro imediato, essa data tem um peso ainda maior. Guardas florestais enfrentam ameaças, agressões, e muitas vezes a morte, por defender aquilo que é de todos: o equilíbrio da natureza.

A homenagem foi criada pela International Ranger Federation para reconhecer homens e mulheres que atuam na linha de frente da preservação ambiental. É uma data de memória e de respeito, dedicada também àqueles que perderam suas vidas protegendo florestas, rios, animais e comunidades tradicionais. No Brasil, onde a defesa da natureza muitas vezes se torna um ato de risco, a data ganha contornos de urgência e denúncia. Ela nos convida a refletir sobre o valor da vida que brota da terra e sobre o trabalho, quase sempre invisível, de quem a sustenta com coragem. Não se trata apenas de celebrar uma profissão, mas de afirmar um compromisso coletivo com o que ainda vive.

Na Umbanda, existem espíritos que caminham pelas matas com a mesma firmeza. São os caboclos, entidades que expressam a força da natureza viva, a sabedoria ancestral dos povos originários e o cuidado com aquilo que o tempo ainda não conseguiu apagar. Entre muitos protetores como Tupinambá, Mata Virgem, Pena Branca e Tupã, há um que traz o nome e a vibração da beira, da resistência, da simplicidade que permanece firme: Junco verde.

Junco é uma planta que cresce na margem. Nunca no centro. Vive entre a terra e a água, e mesmo quando o vento sopra forte, o junco não quebra: apenas se curva. O nome é mais do que uma simbologia, é uma forma de existir. O verde, por sua vez, é aquilo que continua: o que resiste à queimada, o que volta a nascer depois da destruição, o que ainda pulsa mesmo depois da queda.

Caboclo Junco Verde representa essa força que guarda sem aparecer. Silencioso. Firme. Discreto. E quando precisa, grita. Não para se impor, mas para lembrar que ainda há coisas sagradas que estão sendo esquecidas. Seu grito não é vaidade. É memória. É chamado. É resposta aos que pedem cura, mas esquecem da raiz. Aos que querem força, mas ignoram a terra que a sustenta. É um grito que ecoa das matas antigas, das aldeias soterradas, das folhas que um dia foram rezadas e hoje são arrancadas sem respeito.

O trabalho espiritual desses caboclos não está dissociado do mundo concreto. Quando uma floresta é derrubada, algo se desequilibra também no plano invisível. Quando um rio é desviado ou poluído, a ancestralidade das águas sofre. Quando um animal é caçado por crueldade, há um silêncio que grita do outro lado. Tudo o que é ferido aqui, ressoa lá.

O que o Dia Mundial do Guarda Florestal denuncia em números e notícias, a espiritualidade da mata já sabe há muito tempo: toda agressão à natureza é também uma agressão ao que é sagrado. Quando se derruba uma floresta, não cai só madeira, cai vida. Por isso, a Umbanda não trata a mata como cenário, mas como morada.

Neste 31 de julho, talvez o gesto mais justo não seja só homenagear, mas escutar. Escutar os que ainda resistem em corpo nas florestas ameaçadas, e escutar o grito dos que já resistem em espírito, como os caboclos. Grito esse que nos lembra, com humildade, que a floresta não precisa da nossa piedade, precisa do nosso respeito. Porque quem guarda a mata, guarda o mundo inteiro.

 

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