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Consciência Negra: A força que nunca se ajoelhou

Consciência Negra: A força que nunca se ajoelhou

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A história do povo negro no Brasil nunca foi apenas dor. Foi — e continua sendo — uma obra coletiva de inteligência, astúcia, resistência, espiritualidade e ação estratégica. A luta nem sempre empunhou armas; muitas vezes empunhou ideias, palavras, saberes, corpos em movimento, terreiros de fé, páginas de livros, salas de aula e espadas da liberdade.

Tata Tancredo, no Rio de Janeiro, município de Cantagalo, foi uma dessas vozes fundamentais. Sacerdote de grande respeito, usou sua liderança para ajudar a organizar as primeiras federações umbandistas, abrindo caminhos de dignidade e reconhecimento institucional para religiosidades historicamente perseguidas. Com ele, a umbanda e o culto aos ancestrais passaram a ter lugar de fala e de direito.

Muito antes disso, Luís Gama, autodidata genial, advogado dos cativos, libertou mais de 500 pessoas escravizadas com a força de sua oratória e do seu conhecimento jurídico. Sua caneta era sua arma. Sua mente, sua munição.

Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista negra do Brasil, escreveu Úrsula — obra pioneira, ousada, abolicionista — num tempo em que mulheres negras não eram autorizadas nem a existir no espaço literário. Ela escreveu mesmo assim. Ela escreveu para nos libertar.

Da favela do Canindé, Carolina Maria de Jesus chocou o Brasil ao revelar, em Quarto de Despejo, o abismo social que o país insistia — e ainda insiste — em esconder. Com papel catado do lixo, transformou miséria em denúncia e denúncia em literatura universal.

Foi Oliveira Silveira quem resgatou a data de morte de Zumbi dos Palmares em 20 de novembro e a transformou no Dia Nacional da Consciência Negra. Ele sabia que não bastava celebrar a abolição; era preciso celebrar a resistência.

Antes de todos eles, nos tempos de fronteira entre vida e morte, lutaram heroínas que a história oficial tentou apagar:
Dandara dos Palmares, estrategista e guerreira;
Maria Felipa, que queimou embarcações portuguesas e liderou mulheres na independência da Bahia;
Maria Quitéria, que rompeu regras e fardou-se soldado para defender a liberdade.

Antonieta de Barros, professora, jornalista e filha de ex-escravizados, tornou-se a primeira deputada negra da América Latina. Sua arma? A educação como ferramenta de emancipação.

Abdias Nascimento, multiartista, militante, fundador do Teatro Experimental do Negro, escreveu, pintou, atuou e combateu. Seu nome é sinônimo de luta política e estética.

Nos corpos que dançam, lutam e resistem, ecoa a ginga de grandes mestres da capoeira, guardiões da cultura viva:
Mestre Bimba, criador da Capoeira Regional;
Mestre Pastinha, patrono da Capoeira Angola;
Mestre Caiçara, defensor incansável das tradições e da liberdade dos terreiros.

Cada um deles, à sua maneira, levantou-se contra o apagamento. Cada um deles desenhou, com coragem, o Brasil que ainda buscamos ser.

A Consciência Negra é isso: lembrar que a resistência negra nunca foi apenas ferida — foi construção, invenção, amor, fé, arte, insurgência e sabedoria. É reconhecer que sem essas mãos, essas vozes, essas mentes e esses corpos, o Brasil simplesmente não existe.

É honrar o passado, lutar no presente e preparar o futuro.
Não por submissão, mas por ancestralidade. Não por violência, mas por inteligência, astúcia e adaptabilidade. Não por falta de escolhas, mas por grito de vida.

Somos continuidade. Somos memória. Somos movimento.
Somos consciência — negra, viva e inquebrável.

 

 

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