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Dia da Cobra: A Força que me molda

Dia da Cobra: A Força que me molda

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Dia da Cobra: A Força que me molda

Quando fui jogar meu primeiro obi, eu estava nervoso. Meu corpo tremia, as mãos estavam frias, o coração apertado. A sensação de se jogar o primeiro obi é única, como diz o Pai Olavo: “É uma gira a parte.”

E sim, uma gira a parte para você! Uma gira única para você iniciar o conhecimento do seu sagrado, das suas origens e da sua ancestralidade.

Ali começou o meu mergulho no sagrado, na ancestralidade, nas minhas raízes mais profundas. Quando o Pai me perguntou se eu tinha alguma intuição sobre quem seria meu orixá, respondi: “Talvez Iemanjá…” Mas não era.

Ele pediu licença para jogar pelo que sentia, e então veio a resposta: Oxumarê, com permissão para virar para Oxóssi já que, na nossa casa, não cultuamos Oxumarê em sua essência de orixá.

Saí de lá com o coração cheio. Eu, que nunca nem tinha ouvido falar de Oxumarê, fui pesquisar… e me identifiquei com tudo que li.

Dualidade, movimento, transformação, o eterno ciclo. Tudo fazia sentido.

Cerca de três meses depois, já iniciado na corrente, durante o meu amaci, outra experiência surreal, de força indescritível, Seu Quebra Pedra olhou para mim e disse: “Huum… filho de cobra.”

De novo, vieram os pontos de interrogações. E eles ficaram por um tempo, rs.

Até que numa gira de sábado, algo mudou. Seu Arariboia se apresentou. E que apresentação linda! A capitã Deborah estava ao meu lado, e foi a primeira a dar as boas-vindas a ele dentro da casa. Foi um momento único, que me marcou de uma forma que nem sei descrever. Era ele, meu pai de cabeça. E com ele veio a certeza de que tudo estava se encaixando.
Confesso que escrevo esse texto com o coração apertado, mas cheio de gratidão.

A gente não entende os propósitos de imediato…, mas quando eles se realizam, a sensação é única, profunda e verdadeira.

Seu Arariboia e minha mãe de cabeça, Cabocla Cobra D’Água, sempre estiveram comigo, desde a infância. E hoje eu percebo o quanto me transformam, me moldam, me refazem dia após dia.

Hoje, 16 de julho, no Dia da Cobra, eu reverencio esses guias que me sustentam, que me puxam pela mão quando preciso, que me moldam para que eu possa renascer ainda mais firme.

Trago um pouco sobre o que sei sobre os meus pais de cabeça, sempre falo que eles são enigmáticos, seus mistérios são muitos.

Caboclo Arariboia: O Guerreiro Silencioso.

Caboclo de raiz indígena, forte como o tronco do jequitibá e ágil como o movimento das águas, Arariboia é um caboclo guerreiro que carrega a vibração da cobra em seu nome e em sua força espiritual. Arariboia é conhecido por seu nome indígena, que significa “cobra feroz” ou “cobra da tempestade”. Foi um líder indígena da etnia temiminó que teve papel fundamental na luta contra os franceses durante a invasão da Baía de Guanabara no século XVI. Aliado dos portugueses, liderou seus guerreiros na guerra contra os tupinambás e franceses, ajudando a expulsá-los em 1567. Como recompensa, recebeu terras onde fundou a aldeia de São Lourenço dos Índios, atual Niterói (RJ). Arariboia é lembrado como símbolo de bravura e protagonismo indígena na história do Brasil colonial. E é exatamente essa imagem que define seu trabalho: feroz contra o mal, silencioso como a noite na mata, astuto como o espírito ancestral que conhece cada canto da floresta e do coração humano. É com a calmaria que ele rompe feitiçarias. É com sua palavra firme que endireita os caminhos. É com o silêncio de quem escuta a terra que nos ensina a paciência, o respeito e a coragem. Arariboia trabalha nas matas, nas encruzas de terra, nos pontos de equilíbrio entre o mundo material e o espiritual. Seu passe cura, sua fala orienta e seu olhar vê aquilo que os olhos comuns não enxergam.

Cabocla Cobra D’Água: Mãe das Águas Profundas

Já a Cabocla Cobra D’Água, esta é a doçura e o mistério das águas encantadas, regida pela força de Oxum. Espírito feminino ancestral, ela atua nos rios e lagos. Se Arariboia luta, Cobra D’Água cura. Se ele corta as demandas, ela cicatriza as feridas. Seu trabalho é tão delicado quanto firme, trazendo libertação de dores emocionais, limpeza de mágoas, e o renascimento das forças femininas ancestrais. Ela chega calma como a correnteza, cura as feridas da alma com ervas, rezas e banhos. Ensina a deixar ir aquilo que já não serve, como a cobra que troca de pele sem se prender ao que já passou.

Poderia passar horas aqui escrevendo sobre a força de cada guia que carrega essa essência em nossa casa. Porque não é só sobre mim, é sobre todos aqueles que trilham esse caminho ao meu lado, que dançam com a força da serpente e nos ensinam com o silêncio da mata.

Meu mais profundo respeito ao Caboclo Ubirajara, firme, justo, presença que impõe e acolhe. Ao Seu Cobra Coral, com seu olhar penetrante e energia vibrante, que chega com força e conduz com maestria seus trabalhos. A Seu Jararacuçu, que fala com o olhar e ensina com a firmeza de quem já viu o mundo virar muitas vezes, e segue ali, imponente. A Seu Cascavel, que nos protege com a energia de quem nunca dorme, sempre atento, sempre presente. Ao Seu 7 cobras, caboclo que acompanha meu esposo que trabalha com muito zelo pelos filhos da casa.

E claro… não posso esquecer dele.
O serzinho encantado, meu Erê Cobrinha, que mesmo sem falar seu nome, se faz presente de forma única. Brincando e ensinando do jeitinho dele sobre leveza, transformação e ancestralidade.

Eles não são apenas guias. São forças vivas, são parte de mim, da minha fé, da minha construção espiritual. São eles que me sustentam, que me levantam quando caio, que me lembram quem eu sou e de onde vim.

Hoje, no Dia da Cobra, reverencio cada um desses seres de luz e mistério.

Que nunca me falte humildade para aprender com eles. E que nunca me falte coragem para continuar me transformando.

Saravá todos os filhos e filhas de cobra!

Saravá aqueles que curam, moldam e guiam!

Saravá a Umbanda, que nos dá chão, axé e verdade!

 

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