O Dia Nacional de Combate à Homofobia, celebrado em 17 de maio, é mais que um dia simbólico: é um lembrete do quanto a existência de pessoas LGBTQIAPN+ ainda precisa resistir. Resistir ao preconceito, à exclusão, à violência, mas também afirmar, com coragem, que o amor em todas as suas formas é legítimo, digno e sagrado.
A homofobia é um conjunto de atitudes de rejeição, discriminação e violência contra pessoas com orientações sexuais ou identidades de gênero diversas da norma heterocisnormativa. Essas práticas vão desde piadas, exclusão social e desigualdade de oportunidades até agressões físicas e assassinatos. O Brasil, apesar de avanços legais, segue entre os países que mais matam pessoas LGBTQIA+ no mundo. Segundo o relatório do Grupo Gay da Bahia, em 2023, mais de 200 pessoas LGBTQIA+ foram assassinadas no país, muitas delas com requintes de crueldade.
Quando o mundo começou a dizer “não” ao preconceito institucional
O 17 de maio foi escolhido por um motivo muito específico: nesse dia, em 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou oficialmente a homossexualidade da lista de doenças mentais da Classificação Internacional de Doenças (CID). Até então, amar alguém do mesmo sexo era, na prática, tratado como uma patologia, gerando internações, terapias forçadas e segregação institucionalizada.
A partir desse gesto simbólico, ativistas de diversas partes do mundo passaram a reivindicar a data como Dia Internacional contra a Homofobia. No Brasil, o reconhecimento oficial veio com o Decreto nº 7.388 de 2010, sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
A luta LGBTQIA+ no Brasil teve importantes conquistas jurídicas:
2011: O STF reconhece a união estável homoafetiva como entidade familiar, com os mesmos direitos da união heterossexual (ADI 4277 e ADPF 132).
2013: O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) obriga os cartórios a realizarem o casamento civil homoafetivo, impedindo discriminações administrativas (Resolução CNJ nº 175).
2019: O STF equipara a homofobia e a transfobia ao crime de racismo, o que significa que práticas discriminatórias contra LGBTQIA+ podem ser julgadas com base na Lei do Racismo (Lei nº 7.716/89).
Esses avanços, porém, não eliminam o preconceito social. Muitas pessoas continuam sendo expulsas de suas casas, impedidas de adotar, de andar de mãos dadas em segurança, ou até mesmo de frequentar ambientes religiosos.
O amor não tem corpo, tem axé: casamento homoafetivo e dignidade espiritual.
Na Umbanda, acredita-se no amor verdadeiro, e esse amor não vem do corpo físico, mas sim do espírito. O desejo carnal também tem o seu valor ,ele é parte da experiência humana e contribui para o nosso desenvolvimento, mas não é o único caminho para a evolução. A verdadeira evolução, dentro da Umbanda, está ligada à capacidade de viver a solidariedade, que vai muito além do corpo. Ela toca o espiritual, atravessa os sete corpos sutis, e se expressa em ações de empatia, respeito e amor profundo. Por isso, na Umbanda, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é aceito e abençoado. Acreditamos no amor entre espíritos. E o espírito não tem corpo, não tem gênero, ele é pura energia. As energias se aproximam por afinidade vibracional, e é isso que explica os encontros amorosos mais profundos. Não se trata de “almas gêmeas” como muitos pensam, mas de espíritos que vibram na mesma sintonia e escolhem caminhar juntos.
O casamento homoafetivo não atrapalha em nada o desenvolvimento espiritual de ninguém. Pelo contrário: ele pode ser justamente a experiência necessária para que o espírito aprenda, cresça e evolua no amor. E, diante disso, quem somos nós, seres humanos em aprendizado, para julgar o que é certo ou errado?
Dentro dos fundamentos da Umbanda, entendemos que o problema não está no casamento entre pessoas do mesmo sexo. O que outras religiões muitas vezes questionam é a questão da procriação. Mas essa reflexão também precisa ser ampliada. Existem muitos casais heterossexuais que não podem ter filhos e optam pela adoção. Outros, mesmo podendo procriar, escolhem não ter filhos. Ao mesmo tempo, temos muitos casais homoafetivos que adotam com amor crianças em situação de vulnerabilidade, oferecendo a elas um lar acolhedor, afetuoso e seguro.
“Por isso, como sacerdote de Umbanda, sempre defendo que quando celebramos um casamento homoafetivo com todos os fundamentos espirituais, estamos abençoando duas almas que se escolheram com amor e respeito. E se esse casal decidir adotar uma criança, ela estará recebendo essa bênção também. Estará sendo criada num ambiente de solidariedade, afeto e empatia — e tudo isso começou a partir de um simples gesto de reconhecimento e acolhimento espiritual.” (Pai Olavo de Xangô)
Religiões que acolhem, como a Umbanda, têm papel crucial nessa jornada. Elas mostram que o sagrado não é exclusividade de alguns, mas dom compartilhado por todos. Cada vez que um terreiro abre suas portas a uma pessoa LGBTQIA+, cada vez que um casamento homoafetivo é celebrado com flores, cantos e orações, o mundo se torna um pouco mais justo, mais livre, mais vivo.
Que o amor nos guie! Que a fé nos fortaleça! E que o axé nos lembre sempre: todo amor é digno!