Não sei se todos sabem, mas os textos que escrevo fazem parte de um espaço chamado Coluna Mulher. Essa coluna nasceu a partir de um pedido especial da Vó Benta, e eu tive a honra de assumir esse lugar de escrita.
Desde então, venho me dedicando a trazer reflexões sobre diferentes temas que atravessam o universo feminino, a espiritualidade e a fé, buscando dar voz às experiências, às lutas e à força que habitam a trajetória das mulheres.
Sendo assim, hoje, Dia das Mulheres, convido vocês a refletirem sobre uma das frases mais repetidas: “Você é uma mulher forte.”
A intenção aqui, sabemos, muitas vezes é elogiar, reconhecer trajetórias difíceis e exaltar superações, no entanto, por trás desse elogio aparentemente positivo, existe uma estrutura social que se beneficia da “resistência feminina”.
Há séculos, as mulheres aprendem a suportar o limite do próprio corpo, cuidam de casas que muitas vezes nem são suas, de filhos, lutos e silêncios. A força, para muitas delas, nunca foi escolha, foi condição de sobrevivência.
Hoje, a mulher forte é aquela que trabalha fora, administra a casa, organiza a rotina da família, sustenta emocionalmente os filhos, acolhe o parceiro, media conflitos e ainda mantém desempenho profissional exemplar. Ela antecipa problemas, administra sentimentos alheios e transforma cansaço em produtividade. A sobrecarga emocional, que muitas vezes não aparece nas estatísticas, é naturalizada como parte do “jeito feminino de ser”.
Esse fenômeno, como todos já sabem, é estrutural. A sociedade delega às mulheres a função invisível e subconsciente de sustentar o tecido emocional das relações: elas organizam aniversários, consultas médicas, agendas escolares, conflitos familiares, administram afetos… E fazem isso, na maioria das vezes, sem o reconhecimento proporcional. Mas quando essa mesma mulher demonstra exaustão, o discurso muda e surge o julgamento: “está sensível demais”, “não está sabendo se organizar”, “sempre deu conta, por que agora não consegue?” A romantização da força acaba silenciando o direito ao limite.
Sob a perspectiva espiritual, essa lógica entra em conflito com um princípio ancestral: a mulher não é apenas força, ela é fonte. Em nossa casa, essa compreensão se manifesta de forma muito concreta, uma vez que ela é dirigida por um espírito feminino, nossa amada Vó Benta, cuja presença nos ensina diariamente sobre acolhimento, firmeza e sabedoria ancestral. Ao seu lado, muitas outras guias mulheres se manifestam para trabalhar, aconselhar e cuidar, numa espiritualidade conduzida pela escuta, pelo colo e pela força tranquila da ancestralidade, nos lembrando que o feminino não existe apenas para resistir, mas para nutrir, equilibrar e ensinar caminhos de cura.
Nascer mulher não deve implicar em suportar tudo. Revisitar o significado da “mulher forte” é urgente, não se trata de negar a capacidade feminina de resistência, mas de questionar por que essa resistência precisa ser constante. Por que o cuidado é esperado como obrigação e não reconhecido como trabalho? Por que o descanso feminino ainda carrega culpa?
Talvez, neste Dia das Mulheres, a reflexão mais honesta que podemos ter seja deslocar o foco da exaltação da força para a proteção: Quem cuida de quem cuida? Quem acolhe quem sempre acolheu? Mulher não é estrutura de sustentação infinita. Mulher é nascente. E nascente precisa ser preservada para continuar existindo. Quando aprendemos a honrar o feminino, aprendemos algo simples: nenhuma nascente existe para ser explorada até secar. Ela existe para gerar vida, renovar caminhos e alimentar tudo ao seu redor. Mas para continuar jorrando, precisa ser respeitada, protegida e cuidada.
Que possamos também lembrar dos ensinamentos das Yabás, que sustentam mundos inteiros em seus domínios: nas águas profundas de Iemanjá, nos ventos e tempestades de Iansã, nas águas doces e férteis de Oxum e na sabedoria ancestral de Nanã. Elas nos ensinam que o feminino não existe em uma única forma, ele é ciclo, movimento e transformação. Assim como essas forças da natureza, há na mulher momentos de força, sensibilidade, recolhimento e renovação. E talvez a verdadeira sabedoria esteja justamente nisso: compreender que não é preciso ser forte o tempo todo para sustentar o mundo, mas reconhecer que toda nascente que gera vida também precisa ser respeitada, cuidada e preservada. Mulher é nascente! E toda nascente é sagrada!