ESTUDO SOBRE A QUARESMA
O que é a Quaresma?
A Quaresma é um período de 40 dias de preparação espiritual que antecede a Páscoa, celebração da ressurreição de Jesus Cristo. A palavra “Quaresma” vem do latim quadragesima, que significa “quadragésimo”, referindo-se aos quarenta dias de preparação.
Ela começa na Quarta-feira de Cinzas e se estende até a Semana Santa.
O número 40, na Bíblia, simboliza tempo de prova, purificação e transformação espiritual.
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A ideia do número quarenta antes de Cristo
Antes do nascimento de Jesus, o número 40 já possuía forte significado espiritual no Antigo Testamento:
* O dilúvio durou 40 dias e 40 noites (Gênesis 7:12).
* O povo hebreu caminhou 40 anos no deserto (Números 14:33-34).
* Moisés permaneceu 40 dias no Monte Sinai (Êxodo 24:18).
* O profeta Elias caminhou 40 dias até o Monte Horeb (1 Reis 19:8).
Esses períodos representavam:
* Provação;
* Purificação;
* Preparação para algo maior;
* Transformação espiritual.
Portanto, embora a Quaresma como prática ainda não existisse, o simbolismo espiritual do número 40 já estava presente.
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A Quaresma durante a vida de Cristo
O principal fundamento da Quaresma encontra-se no Evangelho:
> “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, onde jejuou durante quarenta dias e quarenta noites.” (Mateus 4:1-2)
Durante esse período, Jesus:
* Jejuou;
* Orou;
* Enfrentou tentações;
* Preparou-se para sua missão pública.
Esse momento é compreendido como exemplo de:
* Autodomínio;
* Fortalecimento espiritual;
* Conexão com Deus;
* Resistência às tentações.
A Quaresma cristã é inspirada nesse período vivido por Cristo.
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A Quaresma após Cristo
Após a ressurreição de Jesus, os primeiros cristãos passaram a se preparar espiritualmente para a Páscoa.
No século IV, a Igreja organizou oficialmente o período de 40 dias como preparação penitencial para a celebração pascal, especialmente após o Concílio de Niceia (325 d.C.).
Desde então, a Quaresma tornou-se um tempo de:
* Oração intensificada;
* Jejum;
* Abstinência;
* Caridade;
* Conversão interior.
O Catecismo da Igreja Católica afirma:
> “Os tempos e dias de penitência ao longo do ano litúrgico são momentos fortes da prática penitencial da Igreja.” (CIC, §1438)
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A Quaresma na Umbanda
A Umbanda é uma religião brasileira fundada oficialmente em 1908 por Zélio Fernandino de Moraes. Reúne elementos do cristianismo, do espiritismo kardecista e de tradições afro-brasileiras.
Embora a Quaresma seja originalmente cristã, muitas casas de Umbanda reconhecem esse período como momento de maior sensibilidade espiritual.
Na visão umbandista:
* É um período de intensificação das energias espirituais;
* Há maior necessidade de oração e vigilância;
* Os médiuns devem reforçar sua disciplina espiritual;
* O trabalho de caridade é intensificado.
Na Umbanda, não existe dogma obrigatório sobre fechar ou manter abertos os terreiros. Cada casa segue a orientação espiritual de seus guias.
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Os “portões do Umbral”
O termo “Umbral” é amplamente difundido na literatura espírita, especialmente nas obras psicografadas por Chico Xavier, como Nosso Lar, pelo espírito André Luiz.
O Umbral é descrito como uma região espiritual de sofrimento e perturbação, onde permanecem espíritos ainda presos a sentimentos negativos.
Algumas tradições espiritualistas populares acreditam que, durante a Quaresma, “os portões do Umbral se abrem”. Contudo:
* Essa ideia não possui base bíblica;
* Não é dogma oficial da Igreja Católica;
* Não é fundamento codificado na Umbanda.
Trata-se mais de um elemento do imaginário espiritual popular brasileiro.
Na Umbanda, ensina-se que o bem e o mal estão ativos o tempo todo, e que a proteção espiritual depende da conduta e da sintonia de cada pessoa.
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Por que devemos nos cuidar na Quaresma?
Independentemente da religião, a Quaresma é um tempo de:
* Reflexão;
* Autoanálise;
* Mudança de comportamento;
* Vigilância moral.
Jesus ensinou:
> “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação.” (Mateus 26:41)
Na Umbanda, também se ensina que a sintonia espiritual é fundamental: pensamentos, palavras e atitudes elevadas atraem boas energias.
Cuidar-se significa:
* Evitar conflitos;
* Controlar impulsos;
* Orar mais;
* Manter equilíbrio emocional;
* Praticar a caridade.
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O Terreiro Firmina do Rosário permanece aberto
Quando um terreiro decide permanecer aberto durante a Quaresma, essa decisão geralmente se fundamenta em dois princípios:
1. A caridade nunca deve parar.
2. Espíritos desencarnados necessitados precisam de auxílio constante.
A caridade é princípio central tanto no cristianismo quanto na Umbanda:
> “Fora da caridade não há salvação.” (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XV)
Se o período é considerado espiritualmente sensível, o trabalho de auxílio torna-se ainda mais necessário.
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A importância da bênção das cinzas
A Quarta-feira de Cinzas marca o início da Quaresma.
Durante a celebração, o sacerdote impõe cinzas na testa do fiel, dizendo:
> “Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás.” (Gênesis 3:19)
A cinza simboliza:
* Humildade;
* Fragilidade humana;
* Arrependimento;
* Conversão.
Não se trata de proteção mágica, mas de um compromisso interior de mudança.
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Alimentação durante a Quaresma
Tradicionalmente, a Igreja orienta:
* Jejum na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa;
* Abstinência de carne às sextas-feiras da Quaresma.
O objetivo não é o sofrimento físico, mas a disciplina espiritual.
Em uma visão espiritual mais ampla, uma alimentação mais leve pode favorecer o equilíbrio emocional e energético.
Evita-se:
* Exageros;
* Consumo excessivo de bebidas alcoólicas;
* Compulsões.
A proposta é viver esse tempo com simplicidade, moderação e consciência.
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Conclusão
A Quaresma não deve ser vista como um período de medo, mas como um tempo de:
* Renovação;
* Transformação;
* Fortalecimento espiritual;
* Prática da caridade.
Antes de Cristo, o número 40 já simbolizava provação.
Durante a vida de Cristo, tornou-se modelo de preparação espiritual.
Depois de Cristo, consolidou-se como tempo litúrgico de conversão.
Na Umbanda, é compreendida como período de maior atenção espiritual e intensificação da caridade. O verdadeiro cuidado não está no temor dos “portões do Umbral”, mas na elevação moral e na prática constante do bem.