-
O MUNDO AINDA PRECISA GIRAR MAIS
O MUNDO AINDA PRECISA GIRAR MAIS
24 de outubro, o mundo celebra o Dia das Nações Unidas, a data em que, em 1945, nasceu uma das maiores tentativas humanas de organizar a convivência global. Fala-se em paz, cooperação, direitos, desenvolvimento. Palavras bonitas, recicladas anualmente em relatórios, conferências, campanhas e hashtags.
Mas pergunto: que mundo é esse que pretende promover a paz sem ouvir os espíritos que conhecem a dor da guerra desde a senzala? Como construir uma fraternidade global sem considerar os saberes dos povos que sempre viveram à margem do “universal”?
Talvez a Umbanda tenha mais a dizer à ONU do que a ONU imagina.
A Organização das Nações Unidas nasceu do trauma: o pós-guerra exigia estruturas para evitar novos genocídios. Era preciso costurar a diplomacia entre nações soberanas. Mas a ONU foi criada por vencedores, em sua maioria, nações colonizadoras. O que se chamou de “nova ordem mundial” era, em muitos sentidos, a velha hierarquia mundial com roupa de gala.
Se a ONU é mesmo uma casa de todos os povos, por que só alguns se sentam à mesa de decisão? Por que espiritualidades indígenas e afrodescendentes seguem tratadas como “folclore”, “crença popular” ou “assunto doméstico”?
A Umbanda nasceu em 1908. Um jovem médium, Zélio de Moraes, recebe a entidade Caboclo das Sete Encruzilhadas, que anuncia: “A partir de hoje, se inicia um novo culto, que unirá as forças da natureza, dos pretos-velhos, dos caboclos e dos espíritos evoluídos para a prática da caridade.”
Quando a ONU fala em paz, refere-se à ausência de guerra, à segurança internacional, à estabilidade econômica. Tudo válido. Mas paz, para a Umbanda, é mais do que isso: é harmonia entre os seres e a natureza, é respeito aos ciclos da vida, é cura pelas mãos que se impõem, mas não impõem nada.
O que é universalidade sem pluralidade?
É aqui que o discurso da ONU se fragiliza.
A “universalidade dos direitos humanos” é importante, sim. Mas que universalidade é possível sem a pluralidade de visões espirituais? A Umbanda não pede espaço na ONU para evangelizar ninguém. Ela não precisa disso. Mas talvez a ONU precise da Umbanda. Precisa reconhecer que há saberes não escritos em tratados, mas que vivem nos corpos, nas ervas, nos pontos cantados. Talvez, ao lado de convenções sobre clima, pudéssemos ouvir o que um Caboclo tem a dizer sobre desmatamento. Talvez, antes de falarmos em justiça, devêssemos consultar o que um Preto-Velho pensa sobre perdão e reparação.
O Dia das Nações Unidas deveria ser um convite não apenas à paz entre países, mas à paz entre mundos, entre formas de existir, de pensar, de crer. A Umbanda é uma dessas formas. Negada, criminalizada, folclorizada, mas VIVA!
Talvez o maior gesto de paz que a ONU poderia fazer seria ouvir aquilo que ela historicamente silenciou. Não se trata de substituir tratados por tambores. Mas de reconhecer que, sem os tambores, a paz é surda.
“Umbanda é a manifestação do espírito para a caridade.”
E talvez também seja a manifestação do espírito para um mundo mais justo.
Leia o conteúdo completo clicando no link abaixo:
https://firminadorosario.com.br/colunaubuntu/o-mundo-ainda-precisa-girar-mais/