Terreiro de Umbanda

Firmina do Rosário

    • Umbanda 117 anos

       

      Desde antes do surgimento formal da religião Umbanda, já existem indícios de vivências espirituais no Brasil que mesclavam práticas afro-indígenas, espíritas e católicas — como os cultos de Luzia Pinta com o Calundu — embora não se tenha até hoje um registro plenamente concreto que ligue diretamente essas manifestações à fundação da Umbanda. Sua prática era aberta ao público — negros e brancos participavam — e envolvia cantos, toques de atabaques, danças, transe e cura espiritual. Sobre o desaparecimento ou fim da sua atividade, sabe-se que ela foi presa pelo Tribunal do Santo Ofício de Lisboa em 1742, submetida à tortura e enviada ao degredo. Seu destino final permanece incerto — não há registro preciso de sua morte ou retorno. A história oficial localiza o início em 1908, quando o médium Zélio de Moraes incorporou a entidade conhecida como Caboclo das Sete Encruzilhadas e em sequência o espírito do velho sábio negro Pai Antônio.

      A Umbanda se apresenta como uma religião tipicamente brasileira, nascida desse encontro entre diferentes matrizes culturais — europeia espírita, africana e indígena — e com forte ênfase no acolhimento. Ela compartilha com o Espiritismo a mediunidade; com o Candomblé, o culto aos orixás e a ancestralidade africana/indígena; com o Catolicismo, o sincretismo simbólico (por exemplo no uso de santos ou imagens como ponte simbólica). No entanto, mais apropriado é dizer que a Umbanda expressa a cultura brasileira sincrética, em que essas influências se entrelaçam, ao invés de simplesmente derivar de um único modelo religioso.

      Na sequência à iniciativa de Zélio de Moraes, outras lideranças complementaram o desenvolvimento da Umbanda, dentre elas Benjamin Figueiredo — que, juntamente com a entidade conhecida como Caboclo Mirim, deu seguimento à construção e expansão das linhas de trabalho. A Umbanda configura-se, simbolicamente, como a junção do branco, do negro e do indígena: Zélio (branco), o Caboclo das Sete Encruzilhadas (indígena) e Pai Antônio (negro). Dessa forma, é uma falácia dizer ou sugerir que a Umbanda tenta embranquecer-se — o simbolismo de sua origem aponta exatamente para a diversidade étnica.

      Importa destacar que, embora a Umbanda tenha sua história com início datado em 1908, ela “ainda está em construção”. Neste ano, por exemplo, ela completa 117 anos (2025 – 1908 = 117), o que evidencia tanto sua longevidade quanto o fato de que continua em transformação. Novas linhas de trabalho — entre elas as chamadas “linhas dos bruxos” e dos “negros catiços” — estão surgindo e estruturando-se. Tais linhas, por vezes mal compreendidas, trazem aspectos de estudo, de pesquisa e de conhecimento da natureza e do planeta, e ajudam a demonstrar que o espírito de inovação e de mudança permanece vivo dentro da Umbanda.

      É necessário desfazer alguns equívocos comuns: a figura de Exu não representa o mal. Na Umbanda, Exu é mensageiro, guardião das encruzilhadas, agente da fluidez, da comunicação entre os planos — e não um demônio ou entidade maligna. Da mesma forma, a ideia de “bruxos” dentro da Umbanda não se refere a figuras negativas ou clandestinas, mas muitas vezes a estudiosos e buscadores de conhecimento que exercem função de desbravar aspectos da natureza, da energia, da espiritualidade para trazer ensino de forma geral.

      Os tambores, ou mais especificamente os atabaques, têm papel central nas religiões afro-brasileiras, e na Umbanda essa característica também aparece — embora com especificidades históricas.

      Alguns pontos importantes:

      O instrumento “atabaque” (derivado de termo árabe “al-Tabaq”) foi adotado na África e posteriormente no Brasil, sendo usado em contextos rituais afro-brasileiros.

      Em estudos recentes observa-se que, na Umbanda, em seus primórdios, o uso de tambores era menos sistemático ou mesmo ausente em alguns grupos, sobretudo quando a religião ainda precisava de discrição ou tinha forte influência espírita kardecista. Por exemplo: “lembrado Jorge Grinã que, a umbanda nasceu sem o tambor; eles vieram com a matriz africana, como aquisição do candomblé, adotados pela umbanda.”

      Com o tempo, a introdução dos tambores ( rum, rumpi e lé ) passou a marcar ritmos e toques próprios da Umbanda, com função espiritual — evocar entidades, conduzir giras, conectar ao ancestral.

      Sete linhas

      Entre os símbolos e numerologias da Umbanda, o número sete tem lugar privilegiado: fala-se das “sete linhas de Umbanda”, dos “sete chacras” (em analogia simbólica ao corpo humano), das “sete vibrações de Deus”, das “sete forças da criação” e das “sete forças da natureza”. Esse uso do sete resulta em uma cosmologia simbólica de completude, equilíbrio e interligação entre o humano, a natureza e o sagrado.

      Em resumo, a Umbanda é uma religião brasileira, nascida no encontro das tradições europeias, africanas e indígenas, voltada ao acolhimento, à caridade e à mediunidade. É plural por natureza, respeita e acolhe todas as pessoas — independente de etnia, religião, orientação sexual ou opção política. E, sendo uma religião que completa 117 anos em 2025 (15 de novembro), ela segue viva, em construção, adaptando-se, evoluindo e abrindo espaço para novas linhas e formas de trabalho espiritual.

       

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