Dia das Mães
O Dia das Mães é mais do que uma data no calendário; é um momento de reverência à força, ao cuidado e à sabedoria que sustentam a vida. É um dia para honrar todas as formas de maternidade — visíveis e invisíveis, materiais e espirituais.
Na Umbanda, essa homenagem se amplia e se aprofunda, alcançando também as mães ancestrais que se manifestam nas linhas de trabalho espiritual: as pretas-velhas, com sua doçura e sabedoria; as caboclas, com sua força e conexão com a natureza; as ciganas, com sua liberdade e intuição; as boiadeiras, guardiãs firmes dos caminhos; as baianas, com seu acolhimento e fé; as malandras, com sua astúcia e proteção; as marinheiras, que nos ensinam a navegar pelas emoções; as sacerdotisas, que conduzem com responsabilidade e amor os caminhos da fé; as pombagiras, com sua força feminina, liberdade e capacidade de transformação; e as bruxas, guardiãs do conhecimento ancestral, da intuição e dos mistérios da vida.
Todas essas entidades carregam em si um aspecto maternal: cuidam, orientam, acolhem, corrigem e protegem. São expressões do sagrado feminino que atravessa o tempo e se manifesta na vida de quem busca amparo espiritual.
Mas hoje, além de olhar para o plano espiritual, eu volto o olhar para a minha própria história, para a minha raiz. Eu olho para a minha mãe.
Minha mãe, Dona Clara — uma mulher simples e, ao mesmo tempo, imensa em tudo o que fazia. Mãe de três filhos, nunca trabalhou fora, mas dentro de casa construiu um mundo inteiro para nós. Seu trabalho era diário, constante e muitas vezes invisível, mas absolutamente essencial. Era ela quem cuidava de cada detalhe da nossa vida: da comida, da limpeza, do conforto, do cuidado e, acima de tudo, do amor.
Suas mãos eram instrumentos de criação e acolhimento. Fazia cobertas de lã de carneiro, pães, crochê, bordados — e, em cada ponto, em cada receita, havia um pedaço do seu coração. Também era massagista, e no toque de suas mãos existia algo que ia além do físico: era cuidado, presença, cura.
Dona Clara enfrentou dificuldades, limitações e desafios com uma força silenciosa. Criou seus três filhos com saúde, firmeza e valores. Não foi uma vida fácil, mas foi uma vida digna, construída com esforço e amor.
Hoje colhemos os frutos do que ela plantou: sua filha mais velha se tornou pedagoga; o filho do meio é empresário; e eu, o caçula, sou professor de Ciências Sociais. Cada um segue sua caminhada, mas todos carregamos, dentro de nós, aquilo que ela nos ensinou.
E é aqui que o coração aperta.
Sinto saudade todos os dias. Uma saudade que não passa, que mora no peito e que, às vezes, dói. Dói perceber que o tempo não volta. Dói saber que, muitas vezes, não aproveitamos como deveríamos os momentos simples — a presença, a convivência. Dói pensar que eu gostaria de ter estado mais perto, de ter dito mais, de ter vivido mais ao lado dela.
Mas, junto com a dor, existe a gratidão. Porque tudo o que sou carrega um pouco dela. Ela permanece em mim — nos meus gestos, nas minhas escolhas, na minha forma de ver o mundo.
Hoje também faço uma homenagem à minha sogra, Dona Clemência, uma mulher simples e batalhadora, que deixou, com sua vida, um ensinamento profundo: resistir, persistir e sempre buscar ser alguém melhor. Sua trajetória mostra que a verdadeira grandeza não está nas facilidades, mas na coragem de continuar, mesmo diante das dificuldades.
Neste Dia das Mães, celebro todas as mães — as de sangue, as de espírito, as que caminham conosco e as que vivem na eternidade. Celebro o amor que sustenta, a força que não desiste e a fé que guia.
E, em especial, celebro a minha mãe, Dona Clara.
Com saudade, com amor… e com eterna gratidão.