Dia Internacional Da Visibilidade Transgênero
Dia 31 de março se comemora, desde de 2009 o Dia Internacional da Visibilidade Transgênero. A data surgiu por iniciativa da Rachel Crandall, uma psicoterapeuta e ativista transgênero americana. Ela é diretora-executiva do movimento Transgender Michigan, uma organização comunitária que tem por objetivo melhorar a vida das pessoas trans.
Define-se como trans a pessoa que não se identifica com o sexo biológico com que nasceu. E embora hoje o tema seja mais amplamente comentado, pessoas trans foram vistas ao longo da história, existem textos sumérios e acádios, de antes de Cristo que documentavam sacerdotes transgéneros. E recentemente o museu de North Hertfordshire redefiniu o imperador imperador Heliogábalo (218 d.C a 222 d.C) como gênero feminino. Segundo Yasmin Rufo, repórter de cultura da BBC, isso aconteceu depois que textos trouxeram à tona uma afirmação do imperador que dizia: “Não me chame de Senhor, pois sou uma Senhora”.
Como vivem as pessoas trans no Brasil?
Um dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), aponta o Brasil como o país que mais mata pessoas trans no mundo. E apesar da redução de 16% em 2024, ocupamos a primeira posição do ranking pelo 16º ano consecutivo. A pesquisa indica que o perfil das vítimas em sua maioria são jovens, pretas, pobres e nordestinas – ou seja, são pessoas que pertencem a outro grupos minoritários. E que a expectativa de vida dessa população é de até 35 anos, apenas.
Nós já sabemos que o Brasil é um país cheio de controvérsias e com esse tema, não seria diferente. Numa sociedade que pouco tolera a vida de pessoas trans, o Brasil também lidera outro ranking, o do país que mais consome pornografia trans no mundo. Esse dado por si só já demonstra o quanto o preconceito e a repressão sexual impactam diferentemente na vida dessas pessoas.
Oxumaré
Fazendo um paralelo com as religiões de matriz africana, um orixá que representa muito bem esse dia é Oxumaré. Ele é conhecido por sua ambiguidade e duplicidade, pertence a água e a terra e é macho e fêmea. É o orixá da transformação, do dinamismo e da continuidade! Oorixá que é representado pela cobra arco-íris também é símbolo de fortuna, riqueza, abundância e prosperidade.
Além disso, ele tem: “ A capacidade de Oxumarê de transitar entre diferentes espaços e unir o que parece estar separado o torna uma metáfora poderosa para o papel diplomático: o de conectar nações, povos e culturas, trazendo equilíbrio e renovação .” – Djamila Ribeiro, em ‘Oxumarê e a dualidade complementar do feminino com o masculino’, Folha de São Paulo.
Será isso que precisamos fazer? Nos conectar com novos povos, culturas, pessoas e a partir disso conseguir alcançar o tão sonhado equilíbrio? Esse equilíbrio se chama respeito . E utilizo uma provocadora das ruas paulistas Yala Silva, para dar nome ao nosso próximo subtítulo. Ela é a pessoa responsável por espalhar pelas ruas e lugares o que considero hoje um grito de fé . E essa frase é:
Fique trans, fique travesti!
É uma frase de resistência que visa deixar bem claro, que pessoas trans nunca vão abrir mão de ser quem são e como são. “Eles virão para nos matar, porque não sabem que somos imorríveis. (…) eles nos despedaçaram, porque não sabem que, uma vez aos pedaços, nós nos espalharemos. Não como povo, mas como peste: no cerne mesmo do mundo, e contra ele.” – Jota Mombaça, no livro ‘Não vão nos matar agora’.
Sou uma pessoa que faz parte da comunidade LGBTQIA +, porém, não posso traduzir para vocês a dificuldade que é ser uma pessoa trans. Por isso, convidei uma pessoa que faz parte da minha vida, uma pessoa que amo como um irmão para trazer a sua percepção sobre algo que é dele, a sua própria vida. O Lucas é meu cunhado e quero finalizar esse texto com o seu relato pessoal.
“A infância foi algo tranquilo pra mim, conforme fui ganhando mais idade, fui percebendo que eu tinha mais similaridade com os meninos da minha idade do que com as meninas, gostava das mesmas brincadeiras, das roupas e do jeito de falar, às vezes até me pegava tentando imitar o jeito que meninos andavam, tentava deixar meu cabelo ao máximo sem pentear pra ter uma aparência mais despojada, também pedia pro meu pai pra jogar bola até tarde na rua, era o que eu mais gostava de fazer.
Como me entendi trans cedo (aos 14 anos) o processo de transição foi um pouco lento e difícil em alguma medida, as pessoas da família que não convivem comigo não achavam que eu tinha certeza da minha transição e também demoraram para conseguir acostumar com o nome que escolhi, meus pais e família mais próxima foram mais tranquilos. Teve uma estranheza e até uma tentativa de não aceitação, mas como sou teimoso e cabeça dura consegui bater o pé e afirmar que eu era assim a partir de agora e nada me faria mudar, também tive ajuda de pessoas mais politizadas dentro da família que me ajudaram a ser visto como realmente sou.
Dentro do meu processo de transição também entendi que eu não sou um homem trans, me encaixo dentro da não binariedade como uma pessoa transmasculina e isso foi algo natural e leve de se perceber, como quando eu era criança e não tinha essa informação que tem muito mais do que homem e mulher, achava que eu era um homem, porém ao longo do tempo e conhecendo mais pessoas trans e estudando sobre o movimento da não binariedade dentro da sociedade e da sua própria comunidade, entendo que é algo que me define melhor do que a palavra “homem”.
Acredito que mesmo tendo bastante tempo de transição a transfobia sempre está presente por ser algo estrutural da nossa sociedade, tenho dificuldades de fazer as tarefas mais simples, como ir ao banheiro tranquilo, fazer exercício físico sem ficarem olhando pra mim com julgamento, ser atendido em lugares públicos e não respeitarem meus pronomes mesmo sendo uma pessoa retificada (correção do nome em cartório), como tantas outras coisas mais profundas como a sexualização vinda de outras pessoas por ter “curiosidade” em um corpo trans, como não poder demonstrar vulnerabilidade em público porque já que sou “homem” não posso chorar, se não automaticamente “volto” a ser uma garota. Todos esses problemas percorrem pelos meus oito anos de transição e, às vezes, me deixam mal comigo mesmo, mas ser trans é a coisa mais linda que eu poderia fazer por mim mesmo, ser trans é ser potente, é viver em comunidade e ser amado por pessoas incríveis e que me entendem, apesar das dificuldades, a gente nunca está sozinho no mundo, ser trans é a melhor parte de mim, porque mostra a coragem e a vontade de viver que eu tenho, a vontade de mostrar que não é só dor.
Por mais que a violência que usam contra a gente seja bruta e maldosa, ser trans não é ser um só! Ser trans é ser múltiplo, é ser grande, é ser imparável. ”