Terreiro de Umbanda

Firmina do Rosário

Coluna Ubuntu

13 DE MAIO

13 DE MAIO

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13 DE MAIO.

Em 1888, a assinatura da Lei Áurea rompeu oficialmente as correntes. Mas não entregou terra, não ofereceu dignidade estruturada, não acolheu os corpos que, por séculos, foram tratados como ferramentas. A liberdade veio como um sopro para quem ainda estava tentando lembrar como se respira.

A abolição foi construída pelo sangue de homens e mulheres escravizados, pelas revoltas negras, pelos quilombos, pelas fugas, pelos levantes, pelas irmandades, pelas articulações abolicionistas e pela insistência de um povo que nunca aceitou plenamente a condição de mercadoria humana. Nomes como Luiz Gama, André Rebouças, José do Patrocínio e milhares de pessoas anônimas ajudaram a empurrar a história até aquele momento.

A Lei Áurea aboliu juridicamente a escravidão, mas não criou mecanismos de reparação social. Não integrou os ex-escravizados à sociedade de maneira digna. O Estado rompeu oficialmente as correntes, mas abandonou milhões de pessoas à própria sorte. A liberdade veio sem estrutura. Veio sem acolhimento. Veio sem justiça histórica.

A MEMÓRIA ANCESTRAL

Na Umbanda, a linha dos Pretos-Velhos representa os guardiões da memória ancestral brasileira. São entidades que simbolizam sabedoria, paciência, acolhimento e transcendência espiritual. Carregam, em seus arquétipos, a marca da dor atravessada, mas também da consciência que sobreviveu à brutalidade.

A sociedade escravocrata tentou reduzir pessoas negras à condição de objeto. Tentou destruir identidades, apagar culturas, romper vínculos familiares, silenciar línguas, criminalizar espiritualidades e transformar seres humanos em ferramentas de produção.

Ainda assim, algo permaneceu vivo. A ancestralidade resistiu. A espiritualidade resistiu. A memória resistiu. E os Pretos-Velhos nos trazem a expressão mais viva dessa permanência.

Enquanto a narrativa oficial muitas vezes trata a abolição como um evento concluído em 1888, a Umbanda aponta para outra compreensão: a verdadeira libertação é um processo contínuo.

As correntes físicas foram rompidas.
Mas muitas correntes invisíveis permaneceram.

Correntes psicológicas.
Sociais.
Econômicas.
Espirituais.

Por isso, os Pretos-Velhos continuam vindo.

Continuam aconselhando.
Continuam benzendo.
Continuam ensinando.

Falar sobre abolição hoje exige honestidade histórica.

A escravidão terminou juridicamente.
Mas suas consequências continuam organizando grande parte da estrutura social brasileira.

Os indicadores sociais, econômicos e educacionais mostram que a população negra ainda enfrenta desigualdades profundas, heranças diretas de séculos de exclusão institucionalizada. O racismo não desapareceu com a assinatura de uma lei — ele apenas se reorganizou dentro das estruturas sociais.

Por isso, a liberdade real ainda está em construção.

E talvez seja justamente por isso que os Pretos-Velhos permaneçam tão presentes na espiritualidade brasileira.

Porque o trabalho deles ainda não terminou.

LIBERDADE

“Fio, A vó num nasceu em berço, não… A vó foi achada mais Luzia, lá na beira da praia.

Cresci no meio de dor, fio. Dentro de senzala, no calor do fogão… Com lágrima caindo dentro da panela e ninguém vendo.

Mas sabe o que a vó aprendeu ali? Que quando o mundo tira a nossa casa, a gente aprende a virá abrigo.

A vó cuidava dos pequeno, dos que ninguém queria pegá no colo. filho de dor… de violência… de rejeição… Porque criança num tem culpa de nada, fio…
e amor… amor é coisa que se dá, não se escolhe… Aprendei com a minha mãezinha, Catarina, a trazer vida no meio da morte… fazer nascê esperança onde só tinha sofrimento… E mesmo assim…
mesmo com tudo isso…
a vó nunca deixou o coração ficá duro… Sabe por quê?Porque o segredo, tá sempre na partilha. Partilha o pão, o cuidado… Partilha até a dor, se for preciso… Porque quando ocê divide, a corrente quebra mais fácil…

Hoje o povo fala de liberdade, né? Mas Liberdade não é só abrí a porta não… é aprendê a saí sem carregá a prisão por dentro…

Tem muita gente livre por fora…
e presa aqui ó… no peito.

E tem muita alma que sofreu tudo, mas aprendeu a voá por dentro…

Num guarda rancor não, fio.
Mas também num aceita menos do que ocê merece.

Seja firme… mas seja doce…
igual o tempo ensinou a vó a sê…

E nunca esquece disso aqui:

Família não é só de sangue não…
é de cuidado… é de presença… é de quem fica…

A vó nunca teve nome em papel, mas teve um monte de filho no coração…

Se o mundo apertá…
ocê vira colo…

Se o mundo esfriá…
ocê vira fogo…

E se alguém te negá amor…
ocê ensina como é que ama…

Ocê num veio pra carregá corrente…
ocê veio pra quebrá elas…”

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