“A Fé que Vem do Campo: Boiadeiros, Vaqueiros, Tropeiros e Pastores na Umbanda e na Sabedoria Popular”
Na Umbanda, os Boiadeiros são entidades que se manifestam com a força serena do campo, trazendo em sua presença a sabedoria de quem conhece o movimento do gado, o cheiro da terra molhada e o silêncio das madrugadas cortadas pelo berrante. Mas essa força espiritual não é única. Ela se desdobra em muitas formas e nomes: boiadeiros, vaqueiros, tropeiros, pastores… todos trabalhadores da lida bruta, do transporte, do cuidado e da condução dos animais – e também das almas.
Essas entidades carregam a memória espiritual de homens simples e valentes, que atravessavam sertões, campos e serras guiando manadas, tropas ou rebanhos. Homens que rezavam para São Jorge antes de montar a cavalo, que firmavam um patuá no chapéu para espantar mau-olhado, e que faziam promessa a Nossa Senhora para salvar uma criação doente. Eles sabiam que o mundo espiritual anda junto com a vida da terra.
Na Umbanda, os Boiadeiros trabalham com firmeza nas entradas dos terreiros, cortando demandas, laçando espíritos obsessores e desatando os nós da alma com seu laço sagrado. Têm ligação forte com a linha de Oxóssi, o caçador, mas também com Ogum, o guerreiro das estradas, e com Xangô, senhor da justiça.
Seu cavalo não é só montaria: é guia, é força, é companheiro.
Seu berrante não é só som: é chamado de alma, é aviso para quem chega e para quem parte.
Esses trabalhadores espirituais também representam a ancestralidade daqueles que conheciam os caminhos, os atalhos, os perigos e os milagres das travessias. O tropeiro que levava sal e café nos lombos das mulas era também um contador de histórias e portador de rezas. O vaqueiro, coberto de couro e suor, era devoto e destemido, enfrentando não só o gado bravo, mas também o invisível. O pastor, com seu cajado, cuidava do rebanho com fé e mansidão, guiando com paciência como os guias conduzem seus médiuns.
As crendices populares reforçam essa presença espiritual: jogar sal na porteira para proteger o curral, acender vela para o anjo do cavalo, rezar o “pai-nosso de trás pra frente” pra desmanchar feitiço no pasto… tudo isso faz parte do imaginário sagrado do campo, que na Umbanda se torna fundamento, trabalho e axé.
Os Boiadeiros quando são chamados para trabalhar não chegam à toa. Eles riscam no chão com suas botas o mapa invisível do destino. Quando giram o laço ou batem o pé no terreiro, estão limpando caminhos, domando energias rebeldes, organizando o rebanho espiritual. Sua fala é curta, mas certeira. Seu silêncio também ensina.
Um Relato Pessoal
Meu pai foi tropeiro. Puxava tropas de mulas entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. Mais tarde, veio para o Paraná, onde passou a vida inteira trabalhando com cavalos, bois, vacas, cachorros, gatos… Enfim, meu velho sempre gostou de lidar com os animais.
Lembro dele benzendo os bichos, fazendo curativos, partos e até cesáreas. Na época, não dei a devida atenção a tudo isso. Hoje percebo o quanto deixei de aprender com ele. Muitas vezes o vi benzendo contra tempestades e ventanias e achava aquilo uma grande bobagem. Enfim, pai… pequei contra ti, e te peço perdão por tanta ignorância.
Meu pai era devoto de São Jorge e sempre dizia que era acompanhado por um boiadeiro. Hoje, acredito que ele esteja sendo preparado para, quem sabe um dia, trabalhar nessa linha tão linda e cheia de mistérios: a linha dos Boiadeiros.
No próximo dia 17, fará sete anos do nosso último abraço.
“Que o Patrão do Céu” — como o senhor costumava dizer — “esteja sempre entre nós.”
Salve os Boiadeiros!
Salve os Vaqueiros, Tropeiros e Pastores!
Homens da terra, da fé e do invisível!