Terreiro de Umbanda

Firmina do Rosário

Coluna Ubuntu

UM GRITO DE LIBERDADE, E A CORRENTE SE QUEBROU. UM GRITO DE LIBERDADE, UM GRITO ME ACORDOU

UM GRITO DE LIBERDADE, E A CORRENTE SE QUEBROU. UM GRITO DE LIBERDADE, UM GRITO ME ACORDOU

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UM GRITO DE LIBERDADE, E A CORRENTE SE QUEBROU! UM GRITO DE LIBERDADE, UM GRITO ME ACORDOU!

No Brasil, o dia 3 de julho marca o nascimento de um sopro de justiça: foi nesta data, em 1951, que entrou em vigor a primeira lei contra o racismo no país, a chamada Lei Afonso Arinos, que passou a considerar a discriminação racial uma contravenção penal. Era pouco, diante de séculos de escravidão, mas foi um começo. Um país que se fez sobre os corpos escravizados começava, timidamente, a nomear a ferida. Mas a ferida já tinha nome. Ela se chamava navio negreiro, tronco, silêncio forçado, fé proibida. E se chamava também resistência.

Porquê junto com as correntes vieram também os cantos. Vieram os Orixás, os encantados, os ancestrais. Vieram os deuses africanos escondidos sob nomes de santos. Vieram os segredos plantados na boca das matas e nos olhos das rezadeiras. Vieram os Pretos-Velhos, que um dia tiveram nome, carne e chicote.

A Umbanda nasceu nesse chão de dor e sabedoria. Ela não é invenção de um único homem, nem o produto de um momento isolado. Embora tenha sido formalizada em 1908, por Zélio Fernandino de Moraes, a Umbanda é muito anterior à sua fundação oficial. Ela é filha da mistura forçada entre os africanos escravizados, os indígenas já violentados e os pobres marginalizados nas bordas das cidades. Ela é neta do batuque escondido nos porões, do sincretismo como sobrevivência e da fé em retribuição ao sofrimento.

Quando os negros chegaram ao Brasil, vieram com tudo o que puderam carregar na alma. E o que a mão não conseguia segurar, o coração salvava. Vieram com os cantos iorubás, os rituais bantos, os segredos dos voduns, os oráculos, os mitos e os curadores. Trouxeram na memória o axé de suas aldeias e o saber milenar sobre folhas, águas e espíritos. Mas tudo isso foi proibido. Criminalizado. Ridicularizado.

No pós-abolição, o povo negro foi largado à própria sorte. Sem terra, sem acesso à educação, sem direitos plenos. Continuaram sendo considerados “sub-humanos”, “inferiores”, “atrasados”. E suas crenças, igualmente tratadas como aberrações. O Código Penal de 1890, já na República, criminalizava os cultos afro-brasileiros como “práticas de magia”, e a Lei da Vadiagem servia para prender médiuns, mães e pais de santo. Os jornais da época tratavam as religiões negras com escárnio. A polícia invadia terreiros, quebrava imagens, queimava roupas, recolhia instrumentos sagrados como “provas de feitiçaria”.

A Umbanda transformou a marginalização em potência espiritual. Ela ergueu os Pretos-Velhos como doutores da alma, mesmo depois de séculos em que foram chamados de ignorantes. Ela coroou os Caboclos como príncipes da mata, depois que seus corpos foram alvos de genocídio. Ela colocou os Exus como guardiões da vida, mesmo quando o cristianismo dominante tentou associá-los ao demônio. Umbanda é reparação histórica.

É o povo negro e indígena dizendo: “vocês podem ter tentado nos matar, mas agora nós curamos.”

E que cura é essa? A Umbanda foi o terreiro que acolheu o trabalhador explorado, a mãe solteira, o doente sem hospital, o órfão sem nome. Ela foi farmácia popular com folhas colhidas com reza. Foi centro psicológico antes mesmo de existir SUS. Foi refúgio e rota de fuga para quem não cabia em mais lugar nenhum. E até hoje é assim.

Mesmo assim, até hoje, o preconceito persiste. A intolerância religiosa que atinge os terreiros é, na verdade, racismo disfarçado. Mais de 80% dos ataques a templos religiosos no Brasil são direcionados às religiões de matriz africana (Plataforma de Liberdade Religiosa, 2022). É o mesmo ódio de antes, mas com outra roupa. O mesmo chicote, mas agora em forma de piada, de exclusão estética, de silêncio institucional.

O dia 3 de julho não pode ser só uma data no calendário. Precisa ser lembrança viva da luta por dignidade, pela liberdade de ser quem se é, de cultuar os ancestrais, de acender velas sem medo. É um dia para ouvir o que a Umbanda tem a dizer, não apenas como religião, mas como ato político, espiritual e reparador.

Ser da Umbanda é um gesto de amor. Mas também é um ato de desobediência. Porque é escolher ouvir a sabedoria da margem, da encruzilhada, da senzala, da mata. É aceitar ser guiado por quem o mundo tentou apagar. É caminhar com Exu na frente, Iemanjá no coração, Ogum na proteção e Xangô na justiça. E é lembrar que, por trás de cada entidade, há um povo real. Que existiu, que sangrou, que morreu e que agora cura.

Umbanda é o Brasil que o racismo tentou silenciar e não conseguiu.
Umbanda é a voz de quem ainda canta, mesmo depois de tudo.
E quando o tambor toca, o mundo treme. Mas a alma preta dança.

 

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