Terreiro de Umbanda

Firmina do Rosário

Coluna Ubuntu

SÃO CAMILO: NÃO SE CURA COM PRESSA, NEM SE SERVE PELA METADE

SÃO CAMILO: NÃO SE CURA COM PRESSA, NEM SE SERVE PELA METADE

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SÃO CAMILO: NÃO SE CURA COM PRESSA, NEM SE SERVE PELA METADE

Poucos sabem, mas antes de se tornar santo, São Camilo de Léllis foi rejeitado. Era um homem alto, doente, marcado por um passado turbulento, vícios, orgulho, batalhas perdidas. Caminhou por hospitais não como médico, mas como paciente. E foi ali, entre os gemidos dos moribundos e os olhos cansados dos esquecidos, que ele renasceu como alguém que aprendeu a amar a dor dos outros porquê conheceu a sua própria.

Na Umbanda, os guias que trabalham com cura como os Pretos-Velhos, os Caboclos e pajés, os Médicos e mestres do oriente raramente são representados como figuras imaculadas. Pelo contrário, são espíritos que passaram por dores humanas intensas: escravidão, abandono, guerra, injustiça. Eles sabem onde dói, porque já doeu neles também. Não falam da dor de fora, falam de dentro.

São Camilo fundou uma ordem dedicada a cuidar dos doentes com ternura e dignidade, quando hospitais eram lugares onde o sofrimento era escondido e não tratado. Ele trocou a frieza dos protocolos pela delicadeza do gesto. E esse é justamente um dos ensinamentos mais valiosos da Umbanda: a cura começa no toque certo, na palavra certa, no silêncio certo.

Nos terreiros, não se distribuem comprimidos ou medicamentos, mas se ouvem histórias. Se fazem defumações, passes, benzimentos, e se entrega algo ainda mais raro: tempo. Um tempo sem pressa, onde o espírito se ajeita devagar, como uma criança que volta a confiar depois de muito medo. O mais curioso é que Camilo também foi médium do cuidado no sentido mais profundo da palavra. Não falava com espíritos, talvez, mas falava com a dor.

E a dor é uma entidade poderosa. É ela que derruba as máscaras, que ensina a humildade, que obriga o orgulho a se curvar. Ele aprendeu com ela. E devolveu ao mundo uma medicina que não cabe nas faculdades: a medicina da presença. Na Umbanda, fala-se muito em missão. Mas raramente essa missão é glamourizada.

Missão é carregar balde, é varrer terreiro, é ouvir quem chega quebrado. E muitas vezes, como Camilo, quem mais serve é quem mais já foi servido. Quem mais cura é quem ainda tem cicatriz.

Hoje, num mundo que trata o cuidado como obrigação mal remunerada, celebrar São Camilo é lembrar que cuidar é um ato sagrado. E lembrar disso dentro da Umbanda é reconhecer que não há hierarquia mais alta do que a de quem acolhe com verdade. O terreiro, como os antigos hospitais de Camilo, é cheio de gente cansada, mas também de pequenos milagres.

Talvez Camilo nunca tenha ouvido falar de Umbanda. Mas a Umbanda conhece bem os seus semelhantes. E no gesto humilde de quem enxuga uma lágrima, eles se encontram. E isso vai além do sincretismo. Porque a luz verdadeira não precisa de tradução. Ela só precisa de alguém disposto a acendê-la no escuro.

 

 

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