O bordado é mais do que um enfeite, é linguagem, é reza, é memória. O primeiro registro do bordado aconteceu na era pré-histórica, onde surge o ponto cruz feito por agulhas de ossos e fibras naturais, usado para enfeitar e diferenciar vestes de pele. Ao longo da história, ele aparece nos registros bíblicos, tornando-se tradição em diversas culturas, dos Romanos aos Chineses, com cada povo criando seu próprio estilo. Tecidos bordados foram símbolos de status e riqueza, especialmente na Idade Média e Moderna, até que a difusão da técnica pela Europa, Ásia e América popularizou novos estilos. No Brasil, o bordado chegou com os portugueses pelo Ceará e se espalhou pelo país, e aqui encontrou outras mãos, as indígenas, negras, sertanejas, que deram novos sentidos e formas à arte do fio.
ENTRE LAÇOS E BORDADOS
Quando uma preta velha costura, ela ensina. Quando uma baiana segura a renda, ela reverencia a força da mulher que fiou. O bordado aparece também como memória das mulheres do sertão, rendeiras e costureiras, que bordavam para manter viva a esperança e para registrar saberes. E é assim com todo povo que aprende a falar em silêncio através de uma linha num pano. Quando alguém pega uma agulha, linha e borda, o mundo gira lá fora, mas ali, naquele pedaço de tecido, o tempo vira sagrado, como quem conta uma história.
Bordar é resistir, é transformar dor em cor, saudade em flor, tempo duro em beleza. Cada ponto é um traço de quem sabe por onde anda e para onde quer ir. Quem borda, não borda só… Ao sentar-se para bordar é como se todas as outras viessem junto para contar: “ sintam a força das mãos que vieram antes de mim e das que andam comigo agora.”
O que você borda ou o bordado que você usa, carrega o que você é, carrega a sua ancestralidade. O que está no pano tem um sentido, as tramas têm fundamento e elas contam a sua história. Bordar na visão da espiritualidade é alinhar os fios da vida com os fios do destino, entender que há ensinamento no nó, que laço é tempo, intenção e conexão. Todo pano que se abre é uma nova possibilidade de caminho, de reza e de cura… É entender que o bordado, depois de tanto tempo, ainda continua sendo um fio que une tempo, cultura, fé e amor.
“Tem reza que não sai da boca. Ela desce pro coração, escorre pelos braços e se costura através dos dedos. Cada ponto vira uma reza silenciosa, cada fio entrelaçado carrega histórias, memórias e afetos. Bordar é transformar o tempo em poesia visível. Tem bordado que não é só enfeite, ele vira mapa, ele vira espelho.”
“Obrigada a todas as vós, costureiras, rendeiras, bordadeiras e tapeceiras que me ajudaram na construção deste texto.”