Terreiro de Umbanda

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Coluna Ubuntu

O Sagrado Também Pisa no Chão Batido

O Sagrado Também Pisa no Chão Batido

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O Sagrado Também Pisa no Chão Batido

 

Há um Brasil que se entende pelo cheiro da terra molhada. Um Brasil que fala pela poeira dos caminhos, pelo mugido do gado ao longe, pelo mate amargo passado de mão em mão, pelo milho partilhado em festa de roça, pela fumaça que sobe do fogo aceso no quintal. Um Brasil de chão batido e horizonte largo, onde cultura e vida cotidiana raramente estiveram separadas.

 

Talvez poucas tradições compreendam tão profundamente esse Brasil quanto a Umbanda, religião nascida em solo brasileiro, tecida no encontro entre matrizes africanas, indígenas, populares e urbanas, mas também atravessada pelos saberes do campo e pelos territórios do interior. Porque a Umbanda nunca foi apenas religião de cidade ou de terreiro fechado entre paredes. Ela é também mata, estrada, curral, fogueira, rio, roçado. Carrega no corpo a memória dos povos do campo, indígenas, sertanejos, tropeiros, vaqueiros, boiadeiros, lavradores, e reconhece nesses saberes uma espiritualidade viva.

 

A FORÇA DA ESTRADA

 

O boi nunca foi apenas um animal!

 

No interior do Brasil, foi parceiro de travessia, força de trabalho, símbolo de sustento e abertura de caminhos. Com o gado vieram rotas, pousos, feiras, povoamentos. Tropeiros desenharam geografias antes mesmo que elas fossem mapas. Não por acaso, a linha dos Boiadeiros carrega, em muitas tradições de Umbanda, a simbologia dessas longas jornadas. Sua força não está apenas no domínio do bruto, mas na condução. Há um ensinamento profundo aí: conduzir sem violência, firmar sem endurecer. Como no campo, também na vida há forças indomadas pedindo manejo. Os Boiadeiros sabem disso.

 

A CIÊNCIA DA TERRA

 

Poucos alimentos guardam tamanha memória civilizatória!

 

Muito antes de ser ingrediente, o milho foi cosmologia para muitos povos originários: dádiva sagrada, parente da chuva, fruto do cuidado entre terra e comunidade. Essa sabedoria ecoa na força dos Caboclos. Porque os Caboclos, em tantas leituras umbandistas, trazem a inteligência do mato e do cultivo: conhecem o tempo da semeadura, a paciência da colheita, a medicina das folhas, a ética de retirar da terra sem violentá-la.

 

Uma espiga nunca nasce por acaso. Há lua, chuva, espera, trato. Há fundamento. E o povo do campo sabe: quem planta não domina a terra, dialoga com ela.

 

A SABEDORIA DOS MAIS VELHOS

 

No Sul, o chimarrão é linguagem. É hospitalidade. É um pequeno ritual de pertencimento. Quem oferece a cuia oferece presença. Há algo profundamente de Preto Velho no gesto do chimarrão. Na pausa, no conselho dado entre um gole e outro. Mas também há algo caboclo nele: a comunhão em roda. A cuia circulando lembra os fundamentos do terreiro.

 

Axé se move!

Palavra se move!

Afeto se move!

 

O mate ensina isso: a energia passada entre gerações, sempre em movimento.

 

A BRASA E O FOGO DOS ENCONTROS

 

E então chega o churrasco!

 

Fogo aceso. Pessoas reunidas, tempo desacelerado, partilha… No fundo, é quase uma “gira doméstica”. Porque há um mistério antigo em reunir gente em torno do fogo. Desde os primeiros povos, desde as fogueiras indígenas, desde os acampamentos dos tropeiros, dos pousos dos boiadeiros, a brasa sempre chamou conversa, memória e comunidade.

 

Na Umbanda, fogo é transformação. Nos pontos de Ogum, nos raios de Xangô, nos descarrego, no elemento que purifica.

 

Mas também é calor humano!

 

Nada sai do fogo como entrou. Nem a carne. Nem a conversa. Nem o coração!

 

Às vezes se fala da Umbanda como se fosse uma tradição única e homogênea. Mas ela sempre dialogou com os territórios. No sertão, ganhou sotaques de boiadeiro. No Sul, conversa com o chimarrão e o Pampa. Nas matas, com os caboclos. No interior, com a sabedoria do povo da roça.

 

A Umbanda nunca expulsou o regional, ela consagrou o regional. Porquê reconhece que o sagrado também tem sotaque. Tem poeira na botina. Tem cheiro de lenha. Tem mãos calejadas. Tem fala de quem conhece o tempo da chuva.

Celebrar essas datas é reconhecer isso: Que há axé nos saberes do campo, que há ancestralidade viva nos povos que plantam, criam, cozinham, conduzem e repartem, que há espiritualidade na cultura popular. No boi, pulsa a força dos Boiadeiros. No milho, a medicina dos Caboclos. Na cuia, a roda dos mais velhos. Na brasa, o fogo das comunidades.

 

E tudo isso, junto, revela algo precioso: o sagrado também usa chapéu de palha, pisa em chão batido, conhece o som do berrante e o tempo da colheita. A Umbanda conhece essa linguagem. Ela sabe que o campo não é apenas paisagem, que o interior não é apenas geografia, que o povo da roça, os tropeiros, os vaqueiros, os lavradores, os povos originários e os guardiões dos caminhos também construíram formas de rezar.

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