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YPYKUÉRA ÁRA

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O Dia dos Povos Indígenas costuma nos convidar a olhar para a memória, para o território e para a resistência. Mas gostaria de abordar esse tema por outra porta de entrada, talvez menos óbvia: a linguagem. Porquê, antes de ser um tema histórico ou político, a presença indígena no Brasil é também uma presença de voz, de canto, de palavra.

 

Uma língua não é só um meio de comunicação. É uma forma de existir. Quando um povo fala, ele não está apenas transmitindo informação; está organizando o mundo à sua maneira, criando laços com a terra, com os antepassados, com os rios, com os seres visíveis e invisíveis. Cada língua carrega uma visão de mundo, uma memória coletiva, um jeito próprio de sentir o tempo. Por isso, talvez, a diversidade linguística indígena seja uma das maiores riquezas da nossa identidade.

 

Pensar o 19 de abril com essa visão é perceber que muitos dos ataques sofridos pelos povos indígenas também foram ataques à sua palavra. Silenciar uma língua é tentar interromper uma herança. É desejar que uma memória deixe de ser contada. É ferir não apenas um povo, mas o modo como esse povo compreende a vida, a espiritualidade e o pertencimento.

 

A Umbanda é uma religião que vive da palavra falada, cantada, rezada, entoada. Vive da oralidade. Vive do chamado. Vive do nome que se oferece ao sagrado. Dentro de um terreiro, a palavra tem força. Ela cura, firma, acolhe, abre caminho. Os pontos cantados, as rezas, os cumprimentos e os ensinamentos passados de boca em boca mostram que a espiritualidade também se guarda na voz.

 

E isso conversa muito com os povos indígenas reais, vivos, diversos e contemporâneos, que mantêm suas línguas como quem mantém acesa uma fogueira no meio da noite. Cada língua preservada é um ato de resistência. Cada criança que aprende a falar a língua dos seus avós carrega consigo uma vitória contra o esquecimento. Cada comunidade que mantém suas palavras mantém também uma forma de respirar no mundo sem se render ao apagamento.

 

Os povos indígenas nos lembram que falar é muito mais do que dizer. É preservar o vínculo com a terra. É manter viva a memória dos ancestrais. É ensinar às novas gerações que existir também é nomear. E a Umbanda, com sua força de oralidade, de canto e de transmissão viva, nos ajuda a compreender que nenhuma espiritualidade sobrevive sem escuta, sem voz e sem respeito ao modo como cada povo nomeia o sagrado.

 

Talvez o Brasil precise aprender a ouvir mais as suas línguas originárias. Talvez precise aprender que a diversidade não é obstáculo para a unidade, mas sua verdadeira beleza. Talvez precise reconhecer que, quando uma língua indígena é silenciada, algo em todos nós empobrece. E talvez a Umbanda nos lembre que todo nome dito com verdade é uma forma de bênção.

 

Que saibamos honrar os povos indígenas também como guardiões de linguagens vivas, de sabedorias profundas e de uma relação sagrada com o mundo. E que, ao falar deles, falemos com o cuidado de quem sabe que a palavra pode ferir, mas também pode reparar.

 

Porque há povos que resistem com o corpo, outros com a terra e outros com a língua. E, muitas vezes, resistem com tudo isso ao mesmo tempo.

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