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O Silêncio que Fere: Bullying, Racismo Religioso e a Urgência do Respeito

O Silêncio que Fere: Bullying, Racismo Religioso e a Urgência do Respeito

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O dia 7 de abril marca o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola. Mais do que uma data simbólica, é um convite à reflexão sobre o tipo de sociedade que estamos construindo — dentro e fora das salas de aula. A escola e o ambiente digital devem ser espaços de acolhimento, respeito e construção de identidade, nunca de exclusão ou violência.

No Brasil, essa discussão precisa avançar para um ponto muitas vezes ignorado: o combate à intolerância religiosa. Essa forma de violência atinge, de maneira recorrente e cruel, crianças e jovens que pertencem às religiões de matriz africana.

Quando a fé vira alvo

Falar de bullying no Brasil sem falar de racismo religioso é tratar apenas parte do problema. Dados do Ministério dos Direitos Humanos indicam que religiões como o Candomblé e a Umbanda estão entre as mais atacadas no país.

Quando essa violência chega à infância, ela se manifesta de forma silenciosa, mas profundamente dolorosa: no isolamento social, nos apelidos pejorativos, na ridicularização de práticas religiosas e na demonização de símbolos sagrados — como o uso de guias (fios de contas) ou roupas brancas.

O que deveria ser motivo de identidade e pertencimento passa a ser escondido por medo.

A violência que ultrapassa os muros da escola

Se antes o sofrimento terminava ao sair da escola, hoje ele continua — e muitas vezes se intensifica — nas redes sociais.

O cyberbullying contra crianças e jovens de axé inclui a exposição de imagens de rituais com comentários de ódio, a disseminação de informações falsas sobre a religião e a criação de conteúdos que ridicularizam a fé ancestral.

A velocidade com que essas agressões se espalham no ambiente digital amplia o impacto emocional, tornando a dor mais profunda e, muitas vezes, contínua.

Vozes que precisam ser ouvidas

Mais do que números, são histórias reais que revelam o peso dessa violência. São relatos que mostram que bullying não é brincadeira — é violação de direitos, de identidade e de dignidade:

“Eu escondia minha guia por dentro da camiseta para não ser chamada de ‘macumbeira’ no recreio. O medo era maior que o meu orgulho.”*

“Diziam que o que eu comia na minha casa era ‘coisa do mal’. Eu passei meses sem querer comer na merenda da escola.”*

“Na internet, as pessoas se sentem corajosas para dizer que minha religião não é de Deus. É um cansaço ter que provar o tempo todo que o meu sagrado é sobre amor e natureza.”*

Essas falas não são exceções — são reflexo de uma estrutura que ainda marginaliza o que é ancestral, negro e sagrado.

Caminhos para transformação

O enfrentamento desse cenário passa, despercebido de tudo, pela educação e pela conscientização:

Lei 10.639/03*: Torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, sendo uma ferramenta fundamental no combate ao preconceito desde a base.

Relatórios da RENAFRO (Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde)*: Evidenciam os impactos psicossociais da intolerância religiosa na vida de jovens de terreiro.

Guia “Caminhos para combater a intolerância religiosa” (Ministério Público)*: Oferece orientações práticas para identificar, enfrentar e denunciar casos de discriminação.

Conclusão

Combater o bullying não é apenas intervir em conflitos pontuais — é reconhecer estruturas de preconceito que atravessam nossa sociedade.

Neste 7 de abril, o chamado é claro: olhar com atenção para as crianças e jovens que carregam consigo os fundamentos das tradições afro-brasileiras.

Respeitar o axé é respeitar a história do Brasil.
Educar para a diversidade é garantir que cada escola seja, de fato, um espaço seguro — um solo sagrado onde todas as crenças possam existir com dignidade.

 

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