27 de abril – Dia da Empregada Doméstica
Há histórias que não estão nos livros.
Antes de serem chamadas de “empregadas domésticas”, muitas foram mulheres negras escravizadas que sustentaram casas grandes. Elas cuidavam de casas que não eram suas, cozinhavam, limpavam e criavam filhos que não eram seus.
O trabalho doméstico no Brasil não começa como profissão, ele nasce de uma estrutura marcada pela desigualdade, pela herança da escravidão e pela naturalização de corpos negros a serviço. Sendo por muito tempo, imposto e não reconhecido.
Durante décadas, o trabalho doméstico seguiu sendo um dos principais destinos das mulheres negras no Brasil. Não por escolha livre, mas por falta de oportunidade, por um sistema que limita acessos e mantém papéis sociais bem definidos, ainda que de forma velada.
Cabe ressaltar que o problema não está no trabalho doméstico em si, pois cuidar de uma casa é trabalho legítimo, necessário e digno. Aqui o que precisa ser confrontado é o lugar social que foi imposto a quem o realiza, historicamente sem direitos, com baixa remuneração e pouca valorização.
Foi só em 2013, com a chamada “PEC das Domésticas”, que muitos direitos básicos começaram a ser garantidos de forma mais concreta, e isso é recente, revelando o quanto essa categoria foi, por tanto tempo, mantida à margem da proteção trabalhista.
Começando dentro da Casa Grande, o trabalho das mulheres negras escravizadas era intenso, constante e marcado por diferentes tipos de violências e controle. Essas mulheres que trabalhavam dentro da casa senhorial eram chamadas, muitas vezes, de “negras de dentro” e apesar de estarem “dentro” da casa, isso não significava melhores condições, apenas uma forma diferente de exploração.
Elas cozinhavam diariamente, limpavam a casa, lavavam as roupas, serviam as mesas, costuravam, bordavam, eram amas de leite amamentando e criando os filhos das sinhás, sendo esta última, uma das funções que as faziam criar vínculos afetivos que eram ignorados ou rompidos pela estrutura escravocrata. E estavam sempre em constante observação, sujeitas a punição através de violência física, a violência sexual por parte de seus senhores, e controle total sobre seus corpos e reprodução.
Numa história mais recente, quantas mulheres criaram filhos de outras famílias enquanto precisaram se ausentar da criação dos seus? Quantas foram chamadas de “quase da família”, mas sem nunca acessar os direitos que uma família garante? Através desse trabalho desvalorizado elas sustentaram lares, financiaram estudos de seus filhos e movimentaram a economia.
Ha séculos essa é uma profissão de sobrevivência, silêncio e rotina em força. Há quem lembre da polêmica há anos aqui no Brasil, que através de programas de distribuição de renda e programas sociais, bem como a lei que garantiu direitos a essa profissão, uma frase ficou bem conhecida: “até empregadas domésticas viajando de avião”.
No Brasil, como explicado até então, o trabalho doméstico tem raízes diretas na escravidão, por isso, ver essas mulheres ocupando espaços historicamente negados gerou desconforto em parte da sociedade.
E isso é mais uma vez, as mulheres contando e sustentando a história.
Nada se mantém de pé sem quem sustente.
E essas mulheres sustentaram: casas, famílias, e estruturas sociais inteiras. Elas sustentam a história…
E reconhecer essa história é reconhecer que elas sustentaram e sustentam tudo até hoje. Sem romantizar o passado, mas reconhecendo as feridas e valorizando quem, por tanto tempo, foi tratada como parte da estrutura, e não como sujeito da própria história.
Que a gente não esqueça: cuidado também é trabalho. E trabalho é dignidade.
E que toda mulher que sustenta o mundo com as próprias mãos seja vista, respeitada e lembrada, não só hoje, mas todos os dias.